jul 09, 2019 AUTHOR: Michela França
Filosofia do design: o pensamento grego ceticista no design

Você já reparou em como os designers questionam o modo de ver e fazer as coisas? Sabia que esse modo de ser surgiu do pensamento filosófico grego ceticista?

Embora o ceticismo, como escola de pensamento filosófico, nunca tenha alcançado a influência de outros pensamentos como o platonismo ou o aristotelismo; o ceticismo deixou arraigado na ciência moderna o seu olhar questionador e investigativo.

Para entender melhor essa relação entre o pensamento grego ceticista e o modo de fazer design, fui buscar conceitos que me mostrassem qual a influência do pensamento grego ceticista na prática do design?

Nesse artigo, mostro porque o pensamento grego ceticista tem tudo a ver com o “modo questionador” dos designers. =) Mas antes, começo conceituando o que é filosofia do design, o porquê de uma filosofia do design. Depois traço um paralelo entre os modos ou tropos do ceticismo e o modo de fazer design. Confira!

O que é a filosofia do design?

A filosofia significa o amor pela sabedoria e se aplica ao campo de estudo de questões existenciais da natureza humana, do conhecimento, da verdade e dos valores, entre eles, os valores estéticos.

Nesse sentido, podemos fazer uma primeira aproximação entre a filosofia e o design, já que as duas áreas que se ocupam também em estudar os valores estéticos, aqueles valores responsáveis por aguçar a nossa percepção e o nosso reconhecimento emocional do mundo.

A filosofia do design é um termo recente, que surgiu por volta de 1990, com a ideia de que, além de conceber coisas, o designer precisa refletir no modo como que ele faz design.

Alguns autores criticam o termo filosofia do design, pelo fato que a “filosofia não é feita para refletir sobre qualquer coisa” já que o pensamento reflexivo é livre, próprio do ser humano e não necessita da filosofia como um meio para existir.

Mas pensar a filosofia no design garante um espaço de diálogo e a polêmica, próprios do pensamento filosófico, necessários para o avanço da prática profissional. E o resultado desse pensar é um olhar renovado sobre os sistemas, as teorias, os métodos e as técnicas do design.

O que é ceticismo?

O ceticismo é uma palavra que muitas pessoas usam para atribuir a alguém que não acredita em nada. Falando de modo um pouco mais aprofundando, podemos dizer que:

“O ceticismo é a dúvida por excelência e o questionamento do conhecimento sensível e racional; ou seja, o ceticismo duvida do conhecimento intelectual, universal, considerado imutável e absoluto.”

A origem do termo, também chamado de ceticismo pirrônico, remete ao
filósofo grego Pirro de Élis (364-275 a.c) que colocava em questão a possibilidade de alcançar uma certeza qualquer.

Em outras palavras, o ceticismo se posiciona entre a afirmação e a negação, ou seja, não acredita e nem duvida; chegando assim a suspensão total de juízo sobre qualquer assunto.

O ceticismo e a ciência moderna

Embora o ceticismo não tenha alcançado a influência de outras escolas de pensamentos filosóficos, por ser considerado um pensamento radical; o modo ceticista de questionar o conhecimento marcou o espírito científico grego, de tal maneira, que se atribuía ao homem grego um “talento especial para converter o seu ceticismo em ciência“.

Cabe lembrar que a ciência moderna, que conhecemos hoje, se distanciou das origens do cientificismo grego a partir do momento que passou a adotar um método, que significa ‘caminho para ir em busca de algo’, ou a busca ou a verificação de uma verdade.

Esse método, ou caminho em busca da verdade, é composto de uma série de atividades, pensadas de modo sistematizado e racional que permite alcançar conhecimentos validados como verdadeiros.

Nesse ponto do artigo, é possível compreender que para avançarmos na tentativa de traçar um paralelo entre o modo de pensamento cético e o modo de fazer design, precisaremos partir de dois pressupostos, que explico a seguir.

Pressupostos: O pensamento cético não absoluto e o design como ciência moderna

A possibilidade de estabelecer relações entre ceticismo e o design neste
artigo, parte de dois pressupostos: o primeiro deles é do ceticismo não absoluto pois este não poderia nem perguntar, tendo em vista que toda pergunta orienta a uma possível resposta; mas adotarmos aqui o ceticismo como uma atitude que não aceita o dogmatismo.

Um segundo pressuposto é do design como ciência moderna, ou seja,
a partir do uso do método no design, que pode ser atribuído à revolução industrial. Com o modo de produção capitalista, a partir da industrialização da produção, houve a ruptura do modo de fazer manual e artístico para o surgimento do projeto e dos métodos no design.

Por que o pensamento cético no design?

Uma relação possível da influencia ou legado do pensamento cético (não absoluto) no modo de fazer design é a atitude questionadora e dubitativa em todo o projeto.

Quando analisamos diferentes métodos de design e seus autores, percebemos em todos eles, o processo de validação, que nada mais é do que o próprio caráter cético de duvidar o produto por averiguar, testar, medir e certificar para a sua total aprovação.

A busca da suspensão de juízo no design e a atitude dubitativa, se reflete nas diferentes etapas projetuais, nas análises de teste de uso, nos processos de melhoria contínua da qualidade do produto, nos testes de credibilidade, de confirmação do valor do produto, etc.

Graças ao pensamento cético no design com os constantes testes, áreas
problemáticas dos projetos de design são descobertas, modificadas e melhoradas.

A dúvida constante proposta pelo ceticismo pode ser tomada pelo design quanto a sua resolutividade: será que este produto, processo ou serviço pode responder melhor às demandas para as quais se propõe?

Finalizando

A filosofia do design permite uma reflexão que nos dispõe a pensar a prática do design quanto ao seu método e os resultados que apresenta.
Embora não haja possibilidade de retomarmos o ceticismo, tal qual se propõe em sua total suspensão de juízo, na ciência moderna; sua atitude investigativa e dubitativa contribuiu e continua contribuindo com a ciência em seu sentido moderno.

Trazendo ao contexto do design, a influência do caráter cético pode ser claramente entendida pelos métodos de validação, onde o ceticismo nos leva da certeza para a incerteza no ato da projetação, sem se recusar a buscar um modelo ideal, a verdade e assim a ataraxia (explicando o termo de modo simples é uma espécie de nirvana que os céticos almejavam). Esta última talvez, seja oriunda da própria atitude dubitativa do cético e podemos dizer também do designer.

Se você gostou do artigo, compartilhe! Se quiser comentar, fique à vontade.

*Esse artigo é um compilado de ideias que escrevi em 2013 com a participação de alguns colegas de mestrado e está disponível para download na revista científica Projética . Todas as referências e o artigo na íntegra você pode conferir lá. =)

Comments (0)

LEAVE A REPLY

Your email address will not be published. Required fields are marked *